Dificuldade para engolir (disfagia)
Refluxo, Esofagite e Câncer de Esôfago

Dificuldade para engolir (disfagia): causas e quando investigar

Perceber que alimentos, líquidos ou até a saliva não descem bem pode indicar alterações que merecem avaliação.

Dr. Thiago TredicciDr. Thiago TredicciCRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626
PublicadoLeitura9 min
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Sentir dificuldade para engolir pode acontecer de maneiras bem diferentes.

Algumas pessoas tossem ou se engasgam no momento em que tentam engolir. Outras sentem um “bolo” preso na garganta, mesmo conseguindo comer normalmente.

Há também quem perceba que a comida desce, mas parece parar no peito.

Essas situações não têm exatamente o mesmo significado. A forma como o sintoma aparece, o tipo de alimento que provoca o incômodo e a evolução ao longo dos dias ou meses ajudam a entender onde pode estar o problema.

A disfagia merece investigação quando persiste, piora ou vem acompanhada de sinais como emagrecimento, dor para engolir ou dificuldade cada vez maior para se alimentar.

O que é disfagia?

Disfagia é o nome médico dado à dificuldade de levar alimentos, líquidos ou saliva da boca até o estômago.

Engolir parece um movimento simples, mas envolve várias etapas.

A língua empurra o alimento para trás, a garganta coordena a passagem e o esôfago conduz o conteúdo até o estômago.

Quando alguma parte desse caminho não funciona bem, podem surgir sinais como:

  • Demora para iniciar a deglutição;
  • Tosse imediatamente após beber água;
  • Necessidade de engolir várias vezes;
  • Sensação de alimento preso na garganta;
  • Impressão de que a comida ficou parada atrás do peito;
  • Necessidade de beber líquido para ajudar o alimento a descer.

O local onde o paciente sente o alimento parado nem sempre mostra exatamente onde está a alteração.

Um problema no esôfago pode, por exemplo, ser percebido mais acima, perto do pescoço.

Engasgo, bolo na garganta e comida parada são a mesma coisa?

Não. Cada descrição pode apontar para uma etapa diferente da deglutição.

Engasgo ao comer ou beber

O engasgo acontece quando o alimento ou líquido segue em direção às vias respiratórias, ou chega muito perto delas.

A pessoa pode tossir de repente, sentir falta de ar, mudar a voz ou ter a impressão de que o líquido “foi para o lado errado”.

Quando os episódios se repetem, principalmente com água e outros líquidos, o problema pode estar na fase inicial da deglutição.

Alterações neurológicas, doenças musculares e problemas da boca ou da garganta podem interferir nessa etapa.

Sensação de bolo na garganta

A sensação de “bolo”, aperto ou algo preso na garganta pode aparecer mesmo quando a pessoa consegue comer e beber sem dificuldade real.

Esse sintoma é chamado de globus faríngeo.

Ele pode surgir junto de refluxo, irritação da garganta, tensão muscular ou outras condições. Nem sempre existe uma obstrução impedindo a passagem dos alimentos.

Quando o incômodo aparece fora das refeições e a alimentação segue normalmente, o quadro pode ser diferente de uma disfagia verdadeira.

Comida que parece parar no peito

Quando a pessoa inicia a deglutição sem problema, mas segundos depois sente o alimento parado no peito, o esôfago precisa ser avaliado.

Esse relato pode ocorrer em estreitamentos, inflamações, alterações do movimento do esôfago ou lesões que diminuem o espaço de passagem.

A consistência do alimento traz pistas. Dificuldade principalmente com carnes, pães e outros sólidos pode sugerir um bloqueio mecânico.

Problemas desde o começo tanto com sólidos quanto com líquidos podem apontar para alteração da movimentação do esôfago.

O que pode causar dificuldade para engolir?

As causas variam bastante.

Para direcionar a investigação, o médico considera idade, duração dos sintomas, presença de refluxo, perda de peso e o modo como a dificuldade começou.

Refluxo pode atrapalhar a passagem do alimento?

Pode.

O refluxo gastroesofágico faz o conteúdo do estômago voltar para o esôfago. A exposição repetida ao ácido pode inflamar a mucosa.

Em algumas pessoas, a cicatrização deixa a região mais estreita. Esse estreitamento, chamado de estenose péptica, pode fazer os alimentos sólidos começarem a prender.

O paciente pode notar que precisa mastigar mais, comer devagar ou beber água para terminar a refeição.

Nem toda pessoa com esse problema apresenta azia intensa. Por isso, a ausência de queimação não exclui uma alteração relacionada ao refluxo.

Estreitamentos do esôfago

O esôfago pode ficar mais estreito por diferentes motivos, como:

  1. Cicatrizes provocadas por inflamação.
  2. Anéis que diminuem o diâmetro interno.
  3. Alterações depois de cirurgias ou tratamentos.
  4. Inflamação associada à esofagite eosinofílica.
  5. Crescimento de uma lesão dentro ou ao redor do órgão.

Quando existe redução do espaço, a dificuldade tende a ser mais percebida com alimentos sólidos.

Se uma comida ficar completamente presa e a pessoa não conseguir engolir nem a própria saliva, é necessário procurar atendimento de urgência.

O que é acalasia e por que ela causa disfagia?

A acalasia é uma doença em que o esôfago perde parte da capacidade de empurrar o alimento.

A região que deveria abrir para a comida chegar ao estômago também não relaxa adequadamente.

Com isso, alimentos e líquidos podem permanecer no esôfago por mais tempo.

Sintomas que podem aparecer:

  • Dificuldade com sólidos e líquidos;
  • Regurgitação de alimento não digerido;
  • Tosse durante a noite;
  • Sensação de parada no peito;
  • Perda de peso;
  • Refeições cada vez mais demoradas.

A acalasia não é confirmada apenas pela descrição dos sintomas.

A endoscopia ajuda a descartar outras causas. A manometria esofágica é um dos principais exames para avaliar a contração do esôfago e a abertura da região de passagem para o estômago.

Dificuldade progressiva pode ser sinal de tumor?

Pode. Esse é um dos motivos para não ignorar uma disfagia que está piorando.

Tumores do esôfago ou da região próxima à entrada do estômago podem diminuir aos poucos o espaço disponível para a passagem dos alimentos.

Um relato que merece atenção é quando a pessoa começa com dificuldade apenas para alimentos mais firmes e, depois, passa a ter problema também com comidas macias ou líquidos.

Outros sinais de alerta:

  • Perda de peso sem intenção;
  • Dor para engolir;
  • Redução importante do apetite;
  • Anemia;
  • Cansaço sem explicação;
  • Vômitos frequentes;
  • Sangramento digestivo.

Ter disfagia não significa ter câncer. Refluxo, inflamações, estreitamentos benignos e alterações de motilidade também podem causar o sintoma.

O que aumenta a preocupação é a combinação entre piora progressiva, emagrecimento, dor e mudanças importantes na alimentação.

Quais sinais indicam que é hora de procurar avaliação?

Uma sensação isolada depois de comer rápido pode não representar uma doença. A repetição do sintoma muda esse cenário.

Procure avaliação médica quando houver:

  • Alimento prendendo várias vezes;
  • Piora gradual da deglutição;
  • Perda de peso sem motivo conhecido;
  • Dor para engolir;
  • Dificuldade também com líquidos;
  • Tosse ou engasgos frequentes durante as refeições;
  • Episódios de comida impactada;
  • Vômitos persistentes;
  • Sangue no vômito ou fezes muito escuras;
  • Anemia;
  • Pneumonia de repetição, quando existe suspeita de aspiração.

A urgência é maior se a pessoa não consegue engolir saliva, sente falta de ar ou percebe um alimento completamente preso.

Dor para engolir é a mesma coisa que disfagia?

Não. Dor ao engolir recebe o nome de odinofagia.

Na disfagia, o problema principal é a dificuldade para o alimento passar. Na odinofagia, o que chama atenção é a dor provocada pela deglutição.

As duas situações podem aparecer juntas.

Inflamações intensas, feridas, infecções e algumas lesões do esôfago podem provocar dor.

Quando a pessoa começa a evitar comida por causa desse sintoma, a avaliação se torna ainda mais importante, especialmente se houver febre, emagrecimento ou piora rápida.

Como o médico investiga a disfagia?

A investigação começa pela história dos sintomas.

Perguntas simples ajudam muito:

  1. A dificuldade acontece com sólidos, líquidos ou ambos?
  2. O problema aparece ao tentar engolir ou alguns segundos depois?
  3. A comida parece parar na garganta ou no peito?
  4. O sintoma começou de repente ou foi piorando?
  5. Existe dor?
  6. Houve perda de peso?
  7. Há refluxo, regurgitação, anemia ou vômitos?
  8. Algum alimento já ficou totalmente impactado?

Com essas respostas, o médico decide quais exames podem esclarecer melhor a causa.

Para que serve a endoscopia?

A endoscopia digestiva alta permite observar o interior do esôfago e procurar alterações que dificultam a passagem.

O exame pode encontrar:

  • Inflamações;
  • Estreitamentos;
  • Úlceras;
  • Anéis;
  • Lesões suspeitas;
  • Alimento impactado;
  • Sinais de esofagite eosinofílica.

Também é possível retirar pequenos fragmentos de tecido para análise.

Essa biópsia pode ser necessária quando existe suspeita de determinadas inflamações ou de uma lesão que precisa ser identificada com mais precisão.

Em alguns estreitamentos benignos, o próprio procedimento endoscópico pode ser usado para dilatar a região e ampliar a passagem.

O que a manometria esofágica mostra?

A manometria avalia como o esôfago se movimenta durante a deglutição.

Um cateter fino registra as contrações musculares e a pressão em diferentes pontos do órgão.

O exame é especialmente importante quando existe suspeita de acalasia ou de outro distúrbio da motilidade.

Ele ganha espaço na investigação quando os sintomas sugerem problema de movimento e a endoscopia não mostra uma causa capaz de explicar a queixa.

Outros exames podem ser necessários?

Sim.

Em algumas situações, o médico pode pedir um estudo contrastado do esôfago. Durante o exame, a pessoa engole um líquido que aparece no raio X.

Ele pode ajudar a mostrar estreitamentos, mudanças no formato do esôfago e dificuldades na passagem do conteúdo.

Quando a principal queixa é engasgo já no começo da deglutição, podem ser usados exames específicos para observar a boca e a garganta durante o ato de engolir.

A escolha depende do tipo de sintoma. Nem toda disfagia precisa dos mesmos exames.

A disfagia tem tratamento?

O tratamento depende da causa encontrada.

Uma estenose relacionada ao refluxo pode exigir controle da acidez e, em certos casos, dilatação.

A acalasia pode ser tratada com técnicas que facilitam a abertura da passagem entre o esôfago e o estômago.

Nos problemas da fase inicial da deglutição, o acompanhamento com fonoaudiologia pode ajudar a tornar a alimentação mais segura.

Quando uma lesão tumoral é diagnosticada, a conduta depende do tipo, da localização e da extensão da doença.

Mudar a consistência da comida ou beber mais água pode aliviar temporariamente a sensação de alimento preso, mas não substitui a investigação quando o sintoma é recorrente.

Quando não vale a pena adiar a investigação?

Comida prendendo várias vezes, piora ao longo das semanas, emagrecimento ou dor para engolir merecem atenção.

Também é importante investigar uma dificuldade nova que passa a limitar a alimentação ou faz a pessoa evitar determinados alimentos por medo de ficarem presos.

Descobrir em qual etapa a passagem está falhando é o que permite escolher o tratamento adequado e evitar que o quadro avance sem explicação.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

01

Sensação de bolo na garganta significa disfagia?

Nem sempre. A sensação de bolo pode aparecer mesmo quando alimentos e líquidos passam normalmente. Quando existe comida prendendo ou dificuldade real para engolir, a investigação segue outro caminho.

02

Refluxo pode fazer a comida ficar presa?

Pode. O refluxo repetido pode inflamar o esôfago e, em alguns pacientes, provocar cicatrização e estreitamento. Nesse caso, alimentos sólidos podem começar a prender.

03

Dificuldade para engolir sempre é câncer?

Não. Refluxo, inflamações, estreitamentos benignos e alterações da movimentação do esôfago também podem causar o sintoma. Perda de peso, dor e piora progressiva aumentam a necessidade de investigar rapidamente.

04

Qual exame costuma ser feito quando a comida parece parar?

A endoscopia costuma ter papel importante porque permite observar o esôfago e procurar estreitamentos, inflamações ou lesões. A escolha final depende do padrão dos sintomas.

05

Quando a manometria é necessária?

Ela é mais útil quando existe suspeita de alteração na movimentação do esôfago, como a acalasia, principalmente quando a endoscopia não explica a dificuldade.

Referências

Leitura complementar em fontes de referência sobre o tema.

Dr. Thiago Miranda Tredicci
Escrito por

Dr. Thiago Miranda Tredicci

CRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626

Cirurgião do aparelho digestivo e gastroenterologista em Goiânia, com mais de 15 anos de experiência em cirurgias de vesícula, refluxo, hérnias e câncer do aparelho digestivo, a maioria por videolaparoscopia. Atende no Órion Business & Health Complex, no Setor Marista.

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