Acalasia
Refluxo, Esofagite e Câncer de Esôfago

Acalasia: o que é, sintomas e cirurgia de Heller

Quando engolir vira um esforço diário, investigar o funcionamento do esôfago e a presença de acalasia ajuda a encontrar o tratamento certo.

Dr. Thiago TredicciDr. Thiago TredicciCRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626
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A acalasia pode começar de um jeito meio confuso. A pessoa percebe que precisa mastigar mais, beber água junto com a comida ou esperar alguns segundos até sentir que o alimento desceu.

Às vezes, a sensação é de que o alimento ficou preso no meio do peito. Em outros momentos, parte do que foi ingerido volta para a boca.

Quando esse quadro passa a acontecer com frequência, vale investigar como o esôfago está trabalhando.

O esôfago não é apenas um “cano” por onde a comida passa. Ele tem músculos que fazem movimentos coordenados para levar o alimento até o estômago.

Na parte final, existe uma região muscular que precisa relaxar na hora certa para abrir caminho.

Quando esse mecanismo falha, o alimento encontra dificuldade para seguir.

O problema envolve duas situações ao mesmo tempo: o esôfago perde boa parte da força de empurrar e a passagem para o estômago não abre como deveria.

O que é acalasia e por que a comida parece parar?

Depois que engolimos, o esôfago faz uma sequência de contrações que empurra o alimento para baixo. Perto do estômago, o esfíncter esofágico inferior relaxa e libera a passagem.

Na acalasia, esse movimento deixa de funcionar de maneira coordenada.

O corpo do esôfago não consegue conduzir a comida normalmente e o esfíncter inferior permanece mais fechado do que deveria.

Para quem sente o problema, a impressão pode ser bem clara: a comida “não vai”.

Com o tempo, podem ficar retidos no esôfago:

  • Alimentos sólidos;
  • Líquidos;
  • Saliva;
  • Secreções produzidas no próprio esôfago.

Em alguns pacientes, o órgão começa a se dilatar porque permanece cheio durante períodos maiores.

Por isso, não é indicado conviver por muito tempo com dificuldade para engolir sem procurar avaliação.

A doença tem caráter crônico. Os tratamentos procuram facilitar a passagem para o estômago e reduzir os sintomas, mas não fazem os nervos e os movimentos do esôfago voltarem exatamente ao funcionamento de antes.

Quais sintomas chamam mais atenção?

A queixa mais comum é a dificuldade para engolir, chamada de disfagia.

Um detalhe ajuda bastante na investigação: o incômodo pode aparecer tanto com comida quanto com líquidos.

Quem está começando a ter sintomas muitas vezes cria estratégias sem perceber. Passa a comer devagar, toma água entre as garfadas ou espera a sensação de “descer” antes de continuar.

Outros sinais também podem aparecer:

  • Sensação de alimento parado atrás do peito;
  • Necessidade de beber líquido para ajudar a comida a passar;
  • Comida voltando para a boca;
  • Engasgos, especialmente à noite;
  • Tosse durante ou depois das refeições;
  • Desconforto ou dor no peito;
  • Perda de peso;
  • Refeições cada vez mais demoradas.

Nem todos os pacientes sentem tudo isso.

Há pessoas que procuram ajuda porque estão emagrecendo. Outras chegam ao consultório porque começaram a acordar com líquido ou alimento na boca.

Por que a comida pode voltar para a boca?

Quando o esôfago não consegue esvaziar direito, parte do alimento fica parada ali por algum tempo. Horas depois, esse conteúdo pode subir novamente até a boca.

Isso é chamado de regurgitação.

Para o paciente, pode parecer refluxo. A diferença é que nem sempre o material que volta veio do estômago.

Muitas vezes, trata-se de comida que nem chegou a passar completamente para ele.

Esse retorno pode acontecer ao se deitar e causar tosse ou engasgos durante o sono. Em situações mais importantes, pequenas quantidades podem alcançar as vias respiratórias.

Por esse motivo, regurgitação frequente junto de dificuldade para engolir merece avaliação.

Engasgo e perda de peso fazem parte do quadro?

Podem fazer.

O engasgo aparece porque líquido, saliva ou alimento podem permanecer no esôfago e retornar, principalmente quando a pessoa está deitada.

A perda de peso tem outra explicação.

Como comer começa a dar trabalho, algumas pessoas reduzem a quantidade de refeições, evitam determinados alimentos ou passam a sentir receio de engolir.

Se o emagrecimento for rápido ou expressivo, a investigação precisa ser cuidadosa, pois dificuldade para engolir e perda de peso também podem ocorrer em outras doenças do esôfago.

Acalasia pode ser confundida com refluxo?

Sim, principalmente quando a pessoa relata queimação, desconforto no peito ou alimento voltando.

O refluxo gastroesofágico acontece quando o conteúdo do estômago sobe para o esôfago.

Aqui, o problema central está na dificuldade de o esôfago esvaziar e na abertura insuficiente da passagem para o estômago.

Essa diferença importa porque o tratamento não é o mesmo.

Se alguém está usando medicamento para refluxo e continua com sensação de comida presa, dificuldade para engolir água ou regurgitação de alimento não digerido, o diagnóstico precisa ser revisto.

Qual exame é mais importante para confirmar o diagnóstico?

A manometria esofágica de alta resolução é o exame principal para confirmar o distúrbio.

Durante o teste, uma sonda fina passa pelo nariz e chega ao esôfago. O equipamento mede as pressões produzidas durante várias deglutições.

O exame mostra, entre outros pontos:

  1. Se o corpo do esôfago consegue produzir contrações.
  2. Como essas contrações acontecem.
  3. Se o esfíncter esofágico inferior relaxa quando a pessoa engole.
  4. Qual é o padrão de alteração encontrado.

A partir desses dados, o médico consegue classificar o quadro em diferentes tipos. Essa informação pode influenciar a escolha do tratamento.

Endoscopia também é necessária?

A endoscopia tem um papel diferente.

Ela permite olhar o interior do esôfago e do estômago e ajuda a descartar problemas que também podem dificultar a passagem do alimento, como estreitamentos e tumores.

Em alguns pacientes, o exame mostra sinais que levantam a suspeita, como esôfago dilatado, restos de alimento ou maior resistência perto da entrada do estômago.

Mesmo quando a endoscopia sugere o problema, a manometria continua sendo fundamental para avaliar a motilidade e confirmar o diagnóstico.

Essa etapa é importante porque existe a chamada pseudoacalasia, situação em que outra doença produz sintomas e alterações parecidas.

Para que serve o esofagograma com contraste?

Nesse exame, a pessoa engole um contraste enquanto são feitas imagens da passagem pelo esôfago.

O médico pode observar se o líquido demora a chegar ao estômago, se existe dilatação do esôfago e como está a região de saída.

Há também o esofagograma baritado cronometrado, que registra imagens em momentos definidos para mostrar quanto do contraste ainda permanece no esôfago.

Todo paciente precisa operar?

Não.

O tratamento é escolhido de acordo com os sintomas, a classificação obtida na manometria, a idade, as condições de saúde, o formato do esôfago e o que já foi tentado antes.

O objetivo é diminuir a resistência na passagem entre o esôfago e o estômago.

As possibilidades são:

  • Dilatação pneumática;
  • POEM;
  • Cirurgia de Heller;
  • Aplicação de toxina botulínica em situações selecionadas.

Medicamentos podem ser usados em alguns casos, mas têm efeito mais limitado e não ocupam o mesmo lugar dos procedimentos que reduzem diretamente a pressão do esfíncter.

Como funciona a dilatação pneumática?

A dilatação é feita com um balão posicionado na região do esfíncter esofágico inferior.

Esse balão é insuflado de maneira controlada para romper parte das fibras musculares que mantêm a passagem apertada. Com isso, o alimento consegue chegar ao estômago com menos resistência.

Alguns pacientes melhoram bem após o procedimento. Outros precisam de novas dilatações com o passar do tempo.

Existe risco de perfuração do esôfago, por isso que a indicação deve ser individualizada e o procedimento precisa ser realizado por equipe com experiência.

O que é POEM?

POEM é uma técnica endoscópica. O acesso é feito pela boca, sem cortes externos no abdômen.

O médico entra no esôfago com o endoscópio, cria um túnel na parede do órgão e corta parte da musculatura responsável pela resistência na saída para o estômago.

Uma vantagem é a possibilidade de fazer uma miotomia mais longa quando necessário, que pode ser útil em pacientes que apresentam contrações espásticas em uma extensão maior do esôfago.

Depois do POEM, existe chance de refluxo gastroesofágico. Por esse motivo, o acompanhamento não termina quando a pessoa volta a engolir melhor.

Como é feita a cirurgia de Heller?

Na cirurgia de Heller, o cirurgião corta as fibras musculares que mantêm a parte final do esôfago muito fechada.

Hoje, o procedimento pode ser feito por técnica minimamente invasiva, com pequenas incisões no abdômen.

O esôfago não é retirado. O procedimento apenas libera a região que oferece resistência à passagem.

Depois do corte muscular, há maior facilidade para o conteúdo do estômago subir.

Por essa razão, a cirurgia frequentemente é associada a uma fundoplicatura parcial, feita para reduzir a chance de refluxo.

A ideia é encontrar um equilíbrio: abrir o suficiente para o alimento passar sem transformar a entrada do estômago em uma região totalmente sem proteção contra o retorno do conteúdo gástrico.

A cirurgia faz o esôfago voltar ao normal?

Não exatamente.

O principal benefício esperado é melhorar a passagem dos alimentos. Ao diminuir a resistência na parte final do esôfago, a comida chega ao estômago com mais facilidade.

Os movimentos do corpo do esôfago podem continuar alterados.

Por isso, mesmo depois de um procedimento bem-sucedido, algumas pessoas percebem que comer devagar e mastigar bem continua fazendo diferença.

Também pode haver retorno da dificuldade para engolir depois de algum tempo.

Quando isso acontece, não basta concluir que “a cirurgia parou de funcionar”. O médico precisa descobrir o motivo.

Podem ser necessários novos exames para avaliar a retenção de alimento, estreitamento, refluxo ou outra alteração.

Heller, POEM ou dilatação: como o médico decide?

Não existe um único procedimento indicado para todos.

A decisão leva em conta vários pontos do caso, como:

  1. Tipo encontrado na manometria.
  2. Intensidade da dificuldade para engolir.
  3. Idade.
  4. Doenças associadas.
  5. Grau de dilatação do esôfago.
  6. Tratamentos anteriores.
  7. Possibilidade de refluxo depois do procedimento.
  8. Experiência da equipe.
  9. Preferência do paciente depois de conhecer os riscos e benefícios.

Nos tipos I e II, a dilatação pneumática, POEM e Heller podem fazer parte das possibilidades terapêuticas.

No tipo III, há um componente de espasmo mais importante.

Nesses pacientes, pode ser necessário cortar uma extensão maior da musculatura. O POEM é uma das técnicas que permitem esse tipo de abordagem.

A escolha precisa ser conversada e ajustada ao tipo de alteração encontrado e às condições do paciente.

Quando procurar um especialista?

Se a comida começou a prender, não espere o quadro ficar intenso para investigar.

Dificuldade para engolir sólidos e líquidos, regurgitação frequente e perda de peso já são motivos suficientes para procurar avaliação.

Também vale marcar consulta quando a pessoa:

  • Precisa beber água para conseguir engolir;
  • Demora muito para terminar uma refeição;
  • Acorda tossindo ou engasgada;
  • Sente o alimento voltar horas depois de comer;
  • Evita refeições por medo de passar mal;
  • Percebe piora progressiva da deglutição.

Quanto antes a causa ficar clara, mais cedo é possível definir um caminho de tratamento e evitar meses de adaptação à dificuldade de comer.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

01

Acalasia tem cura?

Os tratamentos podem melhorar bastante a passagem dos alimentos e reduzir os sintomas. A alteração dos nervos e dos movimentos do esôfago, porém, não é totalmente revertida.

02

Quem tem esse problema pode comer normalmente depois do tratamento?

Muitos pacientes voltam a comer com bem menos dificuldade. Alguns ainda percebem benefício em mastigar melhor, comer devagar e evitar refeições muito grandes.

03

A manometria dói?

O exame pode causar incômodo porque uma sonda fina passa pelo nariz até o esôfago. Ele costuma ser rápido e não envolve cortes.

04

A cirurgia de Heller é definitiva?

Ela pode manter boa melhora por muitos anos, mas nenhum tratamento garante que a dificuldade para engolir nunca volte. O acompanhamento continua importante.

05

POEM é melhor que a cirurgia de Heller?

Não existe uma resposta única. Os dois tratamentos podem ser eficazes. A escolha depende do tipo da doença, das características do paciente, do risco de refluxo e da experiência da equipe.

Referências

Leitura complementar em fontes de referência sobre o tema.

Dr. Thiago Miranda Tredicci
Escrito por

Dr. Thiago Miranda Tredicci

CRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626

Cirurgião do aparelho digestivo e gastroenterologista em Goiânia, com mais de 15 anos de experiência em cirurgias de vesícula, refluxo, hérnias e câncer do aparelho digestivo, a maioria por videolaparoscopia. Atende no Órion Business & Health Complex, no Setor Marista.

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