Receber um resultado de endoscopia com esofagite erosiva grau A, B, C ou D pode causar preocupação, principalmente quando o laudo traz termos que não fazem parte do dia a dia.
Essas letras não representam estágios de câncer nem indicam, sozinhas, que existe uma doença grave.
As letras mostram o quanto o esôfago foi machucado pelo refluxo. Quando a classificação avança de A para D, significa que as lesões ocupam uma parte maior da parede do órgão.
Esse resultado ajuda o médico a entender melhor o quadro e a decidir se o paciente precisa apenas de tratamento com remédios ou de uma avaliação mais detalhada.
O que é esofagite erosiva?
Quem sofre com refluxo reconhece bem a sensação: a queimação sobe pelo peito e, às vezes, parece que o conteúdo do estômago está voltando.
Esse retorno chega ao esôfago, que fica entre a garganta e o estômago. Quando acontece muitas vezes, a região vai ficando irritada.
Com o passar do tempo, podem aparecer pequenas feridas na parte interna do esôfago. É esse tipo de alteração que a endoscopia pode mostrar como esofagite erosiva.
A pessoa pode apresentar:
- Azia;
- Queimação no peito;
- Líquido ou alimento voltando para a boca;
- Gosto ácido;
- Desconforto depois das refeições;
- Piora dos sintomas ao deitar;
- Dificuldade ou dor para engolir em alguns casos.
Existe um detalhe importante: a intensidade da queimação nem sempre acompanha o grau visto na endoscopia.
Uma pessoa com grau A pode sentir muita azia. Outra com grau C pode ter sintomas relativamente discretos.
O que significa esofagite erosiva grau A, B, C e D?
Para descrever as lesões de maneira mais uniforme, os médicos utilizam a classificação de Los Angeles.
Ela divide a esofagite erosiva em quatro graus: A, B, C e D.
O que muda de uma letra para outra não é apenas a quantidade de inflamação. O endoscopista observa principalmente o tamanho das erosões e quanto da circunferência do esôfago está comprometida.
Grau A: pequenas erosões
O grau A é o nível mais limitado da classificação.
A endoscopia encontra uma ou mais pequenas áreas de lesão na mucosa, com até 5 milímetros de extensão. Essas erosões ficam restritas a determinadas regiões das pregas do esôfago.
Em linguagem mais simples, significa que há sinais de agressão pelo refluxo, mas a área machucada ainda é pequena.
O tratamento geralmente consegue cicatrizar essas lesões com boa resposta.
O médico também leva em conta os sintomas do paciente, já que alterações muito pequenas precisam ser interpretadas junto com a história clínica.
Grau B: erosões maiores
No grau B, as áreas de erosão têm mais de 5 milímetros.
Mesmo sendo maiores que as encontradas no grau A, elas ainda não se unem entre diferentes pregas da parede do esôfago.
É uma esofagite mais evidente na endoscopia.
Azia frequente, regurgitação e piora ao se deitar podem acompanhar esse quadro, mas não existe uma regra que determine quais sintomas aparecerão.
O uso correto dos medicamentos para controlar a acidez é uma parte importante do tratamento.
Grau C: lesões que ocupam uma área maior
No grau C, as erosões já se unem entre duas ou mais pregas do esôfago.
A lesão ainda ocupa menos de 75% da circunferência interna do órgão. Esse resultado mostra uma exposição mais importante da mucosa ao refluxo.
O tratamento precisa ser acompanhado com atenção, pois a chance de a inflamação reaparecer após a suspensão do medicamento é maior que nos graus mais leves.
Muitos pacientes precisam manter algum tipo de controle da acidez por períodos prolongados.
Também pode ser indicada uma nova endoscopia após o tratamento para verificar se a mucosa cicatrizou adequadamente.
Grau D: inflamação extensa
O grau D é o mais avançado dentro da classificação de Los Angeles.
Nesse caso, as lesões atingem pelo menos 75% da circunferência do esôfago, mas não significa que o paciente esteja com câncer ou que a situação seja irreversível.
Significa que existe uma inflamação extensa e que o refluxo precisa ser controlado de maneira mais rigorosa.
O acompanhamento também permite pesquisar problemas que podem aparecer em pessoas com refluxo intenso ou de longa duração.
Entre eles estão o estreitamento do esôfago e o esôfago de Barrett.
Grau C ou D significa câncer?
Não.
As letras A, B, C e D são usadas para medir a extensão da esofagite erosiva. Elas não representam etapas de evolução de um câncer.
Até mesmo o grau D continua sendo uma classificação de inflamação causada por lesões na mucosa.
O que pode acontecer é o médico prestar maior atenção a pacientes com refluxo intenso e prolongado, pois anos de exposição ao conteúdo do estômago podem favorecer outras alterações no esôfago.
É um dos motivos pelos quais o acompanhamento não deve ser abandonado depois que os sintomas melhoram.
Como é feito o tratamento da esofagite erosiva?
O tratamento tem dois objetivos principais: permitir que o esôfago cicatrize e diminuir a quantidade de refluxo que continua chegando à região.
Os medicamentos que reduzem a produção de ácido do estômago têm papel central. Entre os mais usados estão os inibidores da bomba de prótons, conhecidos pela sigla IBP.
O tipo do medicamento, a dose e o tempo de tratamento precisam ser definidos individualmente.
Tomar o remédio no horário indicado também faz diferença. Alguns medicamentos desse grupo funcionam melhor quando usados antes de uma refeição.
O paciente não deve aumentar doses, interromper o tratamento ou trocar o medicamento por conta própria.
Quanto tempo leva para cicatrizar?
Não existe um prazo único.
Casos mais leves podem apresentar boa cicatrização após algumas semanas de controle adequado da acidez.
Nos graus C e D, o tratamento exige um acompanhamento mais cuidadoso, já que existe uma área maior do esôfago lesionada.
O fato de a azia desaparecer também não confirma que as erosões tenham cicatrizado completamente.
Por esse motivo, uma nova endoscopia pode ser indicada após o tratamento dos graus mais avançados.
Essa avaliação permite observar a recuperação do esôfago e verificar alterações que poderiam ter ficado escondidas pela inflamação intensa.
Quais hábitos ajudam no controle do refluxo?
O medicamento trata a acidez, porém, alguns hábitos podem reduzir episódios de refluxo durante o dia e principalmente à noite.
As orientações precisam considerar a rotina e os sintomas de cada pessoa.
Algumas medidas utilizadas são:
- Evitar deitar logo depois de comer.
- Deixar um intervalo de algumas horas entre o jantar e o sono.
- Reduzir refeições muito volumosas.
- Perder peso quando existe excesso de peso.
- Elevar a cabeceira da cama quando o refluxo aparece principalmente à noite.
- Observar quais alimentos realmente provocam sintomas.
- Evitar cigarro.
- Moderar bebidas alcoólicas quando elas pioram a azia.
Não é necessário retirar uma grande quantidade de alimentos apenas porque existe esofagite.
Café, chocolate, comidas gordurosas, bebidas gaseificadas e alimentos muito condimentados incomodam algumas pessoas, mas não todas.
Faz mais sentido identificar aquilo que piora os sintomas de cada paciente.
A esofagite pode voltar depois do tratamento?
Pode.
O medicamento consegue cicatrizar a mucosa, mas não necessariamente elimina o motivo pelo qual o refluxo acontece.
Uma hérnia de hiato, por exemplo, pode favorecer a subida do conteúdo do estômago.
Também existem pessoas cujo mecanismo de fechamento entre o esôfago e o estômago apresenta uma falha importante.
Por isso, principalmente nos graus C e D, interromper a medicação sem acompanhamento pode permitir que a inflamação reapareça.
Alguns pacientes precisam usar tratamento de manutenção.
A meta é encontrar a menor quantidade de medicamento capaz de manter a doença controlada, quando essa estratégia é adequada ao caso.
Quando a esofagite erosiva grau C ou D pode levar à cirurgia?
Encontrar grau C ou D na endoscopia não significa que uma cirurgia será marcada.
O resultado mostra que existe refluxo com lesão importante do esôfago e coloca a cirurgia antirrefluxo entre as possibilidades que podem ser discutidas.
Ela ganha mais espaço quando existem situações como:
- Hérnia de hiato de tamanho relevante;
- Refluxo persistente apesar do tratamento bem realizado;
- Retorno rápido da esofagite quando o medicamento é retirado;
- Regurgitação intensa que continua incomodando;
- Necessidade de tratamento contínuo em um paciente que deseja discutir uma solução cirúrgica;
- Complicações relacionadas ao refluxo;
- Refluxo claramente documentado e sintomas que comprometem a qualidade de vida.
O grau da esofagite é somente uma das peças dessa decisão.
Idade, sintomas, anatomia do hiato, presença de hérnia, resposta aos medicamentos e funcionamento do esôfago também precisam ser avaliados.
Como é a cirurgia para refluxo?
Uma das operações utilizadas é a fundoplicatura.
Durante o procedimento, o cirurgião usa uma parte do estômago para reforçar a região onde o esôfago encontra o estômago.
Quando existe hérnia de hiato, ela também pode ser corrigida.
A intenção é dificultar a subida do conteúdo gástrico.
Grande parte dessas cirurgias é feita por videolaparoscopia, com pequenas incisões.
Antes da cirurgia, o paciente passa por uma avaliação específica para confirmar se aquele procedimento é realmente adequado para o seu caso.
Quais exames podem ser pedidos antes da cirurgia?
A endoscopia fornece informações importantes, mas não responde a todas as perguntas necessárias para planejar uma operação.
Um exame frequente nessa etapa é a manometria esofágica.
Ela mede os movimentos do esôfago e verifica como funciona a região de passagem para o estômago.
Dependendo do quadro, também pode ser utilizada a pHmetria ou a pHimpedanciometria, exames capazes de analisar episódios de refluxo durante um período prolongado.
Nem todo paciente precisa realizar exatamente a mesma sequência de testes.
O cirurgião e o gastroenterologista definem a investigação a partir dos sintomas e dos achados já conhecidos.
É preciso repetir a endoscopia?
Para quem apresentou graus C ou D, é frequente que o médico peça uma nova endoscopia depois de um período de tratamento.
O objetivo não é simplesmente saber se a letra mudou.
O exame permite verificar se as feridas cicatrizaram e avaliar melhor a mucosa que estava muito inflamada na primeira endoscopia.
Esse cuidado também ajuda na pesquisa do esôfago de Barrett, que pode ficar difícil de identificar quando existe uma esofagite extensa.
Nos graus A e B, a necessidade de repetir o exame depende mais dos sintomas, da evolução e de outros fatores de risco.
Quando procurar o médico antes do retorno programado?
Alguns sintomas merecem avaliação sem esperar apenas pela consulta de rotina.
Procure atendimento se houver:
- Dificuldade progressiva para engolir;
- Alimento parecendo ficar preso;
- Dor ao engolir;
- Vômitos frequentes;
- Sangue no vômito;
- Fezes muito escuras;
- Perda de peso sem explicação;
- Anemia;
- Dor no peito nova ou intensa.
Dor no peito não deve ser automaticamente atribuída ao refluxo. Dependendo das características, problemas cardíacos também precisam ser descartados.
O que realmente importa ao ler o laudo?
A letra encontrada na endoscopia ajuda a mostrar quanto da mucosa foi lesionada.
Ela não deve ser interpretada isoladamente.
Um grau A geralmente representa uma alteração pequena. Os graus C e D mostram comprometimento bem mais extenso e pedem acompanhamento mais atento.
Mesmo nos casos mais avançados, existem tratamentos capazes de cicatrizar o esôfago e controlar o refluxo em muitos pacientes.
Quando medicamentos e mudanças na rotina não oferecem o controle esperado, ou quando existe uma alteração anatômica importante, a cirurgia de refluxo pode passar a fazer parte da discussão.
A decisão precisa considerar o quadro completo, e não apenas uma letra escrita no resultado da endoscopia.
Perguntas frequentes
01Esofagite erosiva grau A é grave?
O grau A representa a forma mais limitada da classificação de Los Angeles. As erosões são pequenas e geralmente apresentam boa resposta ao tratamento para redução da acidez.
02Esofagite grau B pode virar grau C?
Pode haver progressão quando o refluxo continua sem controle, mas isso não acontece obrigatoriamente. O tratamento adequado ajuda a cicatrizar a mucosa e reduzir novos episódios de lesão.
03Esofagite erosiva grau C precisa de cirurgia?
Não obrigatoriamente. Muitos pacientes respondem ao tratamento medicamentoso. A cirurgia é avaliada quando há refluxo importante, recorrência, hérnia de hiato, sintomas persistentes ou outros fatores.
04O grau D da esofagite significa câncer?
Não. Grau D significa que as erosões atingem uma grande parte da circunferência do esôfago. A classificação mede a extensão da inflamação e não corresponde a estágio de câncer.
05Quem tem esofagite erosiva precisa tomar omeprazol para sempre?
Nem todas as pessoas. Casos mais avançados apresentam maior chance de retornar após a retirada do medicamento. O tempo de manutenção deve ser decidido de acordo com a evolução e os achados dos exames.
Leitura complementar em fontes de referência sobre o tema.
- Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)MSD Manuals
- Exames relacionados ao ácido e ao refluxoMSD Manuals
- EndoscopiaMSD Manuals

Dr. Thiago Miranda Tredicci
CRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626
Cirurgião do aparelho digestivo e gastroenterologista em Goiânia, com mais de 15 anos de experiência em cirurgias de vesícula, refluxo, hérnias e câncer do aparelho digestivo, a maioria por videolaparoscopia. Atende no Órion Business & Health Complex, no Setor Marista.
Quando a cirurgia de esôfago é indicada



