Quando há a indicação de remover o pâncreas, uma das primeiras perguntas é: "podemos viver sem o pâncreas?". A resposta é sim.
O que muda é que o corpo passa a precisar de ajuda para funções que antes eram feitas pelo próprio órgão, principalmente na digestão e no controle da glicose. Casos com indicação operatória são conduzidos na cirurgia de pâncreas com o Dr. Thiago Tredicci.
Isso exige adaptação, porém, não significa que a pessoa precise abandonar trabalho, viagens, exercícios ou outras atividades que faziam parte da rotina antes da cirurgia.
Por que o pâncreas faz tanta diferença?
Parte importante da digestão depende do pâncreas, pois ajuda o organismo a processar o que foi ingerido.
Para isso, produz enzimas digestivas que atuam no intestino e participam da quebra de componentes dos alimentos, especialmente das gorduras e das proteínas.
Ele também participa do controle do açúcar no sangue. É ali que o organismo produz insulina e glucagon.
Quando o pâncreas inteiro precisa ser retirado, o corpo perde essas duas funções, que significa que a digestão passa a precisar de reposição de enzimas e o controle da glicose exige tratamento específico.
Retirar uma parte não é igual a retirar o pâncreas inteiro
Nem toda cirurgia no pâncreas termina com a remoção completa do órgão. Dependendo da doença e do lugar onde ela está, o cirurgião pode retirar somente a região afetada.
Na pancreatectomia distal, por exemplo, são removidas porções do corpo e da cauda.
Já na operação de Whipple, a parte tratada é a cabeça do pâncreas, junto de outras estruturas da região.
A retirada completa recebe outro nome: pancreatectomia total. Nesse caso, não permanece tecido pancreático após a cirurgia.
Essa diferença muda bastante o pós-operatório.
Quando sobra tecido pancreático funcionando, ainda pode existir alguma produção de insulina e de enzimas. Na retirada total, essa produção pancreática deixa de existir.
O que muda depois de ficar sem o pâncreas?
Algumas mudanças começam logo após a operação; outras vão ficando mais claras durante a recuperação.
Duas exigem mais atenção: a glicose e a digestão.
A insulina passa a fazer parte da rotina
Sem o pâncreas, o organismo perde sua principal fonte de insulina.
Depois da retirada completa do pâncreas, a insulina passa a fazer parte do tratamento diário. A dose é ajustada ao longo do tempo, conforme a resposta de cada paciente, as refeições e a rotina. Para aprofundar, veja operação do pâncreas.
Esse acompanhamento deve ser mais cuidadoso porque o organismo também perde a produção de glucagon.
Esse hormônio ajuda a reagir quando a glicose cai demais, o que torna os episódios de hipoglicemia um ponto importante no controle após a cirurgia.
Por isso, episódios de hipoglicemia precisam ser prevenidos e reconhecidos.
O paciente aprende, com o tempo, como seu corpo responde às refeições, aos horários e às doses de insulina.
Comer também passa a exigir outro cuidado
As enzimas produzidas pelo pâncreas ajudam o organismo a aproveitar aquilo que chega ao intestino.
Sem elas, uma parte dos alimentos pode não ser digerida corretamente.
A reposição é feita com cápsulas de enzimas pancreáticas usadas durante refeições e lanches. A quantidade depende do que a pessoa come e de como está respondendo ao tratamento.
Não existe uma dose única que sirva para todo mundo.
Quando a reposição não está bem ajustada, podem aparecer mudanças que o próprio paciente percebe, como fezes mais gordurosas, gases, diarreia ou perda de peso.
Esses sinais merecem ser levados para a consulta.
Dá para comer normalmente sem pâncreas?
Essa é uma das primeiras preocupações depois da cirurgia.
A alimentação pode mudar, principalmente durante a recuperação, mas retirar o pâncreas não significa passar o resto da vida com uma dieta extremamente limitada.
No começo, refeições menores podem ser mais fáceis de tolerar.
Depois, o foco é outro: conseguir manter peso, receber nutrientes suficientes e usar as enzimas de forma adequada para aquela alimentação.
Alguns pacientes precisam de ajustes maiores. Outros voltam a comer de maneira bastante próxima ao que faziam antes.
O que não ajuda é retirar vários alimentos por conta própria. Quando o paciente já perdeu peso, restrições desnecessárias podem dificultar ainda mais a recuperação.
Quanto tempo vive uma pessoa sem o pâncreas?
A pergunta sobre quanto tempo vive uma pessoa sem o pâncreas não pode ser respondida com um número de anos.
O motivo é simples: não é apenas a retirada do órgão que define o prognóstico. A doença que levou à cirurgia pesa muito nessa conta.
Quem retirou o pâncreas por causa de uma pancreatite crônica grave vive uma situação bastante diferente de quem precisou operar um tumor maligno.
Também entram nessa avaliação:
- Idade;
- Outras doenças;
- Estado nutricional;
- Complicações após a cirurgia;
- Controle da glicose;
- Resposta ao tratamento da doença de origem.
Uma pancreatectomia total não significa, por si só, que a pessoa terá pouco tempo de vida.
O acompanhamento depois da operação serve justamente para controlar as consequências da ausência do órgão e preservar a saúde ao longo dos anos.
E quando o pâncreas continua no corpo, mas funciona mal?
Nem sempre é preciso retirar o órgão para que suas funções fiquem prejudicadas.
Na pancreatite crônica, por exemplo, o tecido pode sofrer alterações ao longo do tempo. Em alguns pacientes, chega um momento em que a quantidade de enzimas produzida já não é suficiente para uma boa digestão.
Essa situação é chamada de insuficiência pancreática exócrina.
A pessoa pode perceber que está perdendo peso sem querer, que as fezes mudaram ou que determinados alimentos parecem passar pelo intestino sem serem bem aproveitados.
Também pode ocorrer redução da produção de insulina.
Por isso, a dúvida sobre o que acontece se o pâncreas parar de funcionar, tem respostas diferentes. Depende de qual função foi perdida e do grau dessa perda.
Nem sempre a digestão e o controle da glicose pioram ao mesmo tempo.
Quem retira só uma parte do pâncreas terá diabetes?
Não obrigatoriamente.
Se uma parte do órgão permanece, ela pode continuar produzindo insulina.
Há pessoas que mantêm a glicose dentro de níveis adequados após a cirurgia. Outras desenvolvem diabetes algum tempo depois.
O risco varia de acordo com quanto pâncreas foi retirado, como estava o órgão antes da operação e se o paciente já apresentava alterações da glicose.
Uma cirurgia parcial também pode reduzir a produção de enzimas digestivas sem causar uma deficiência completa.
O acompanhamento ajuda a perceber essas mudanças cedo.
Existe transplante de pâncreas?
Receber um novo pâncreas não faz parte da rotina de quem teve o órgão retirado.
O transplante é usado em situações bastante específicas, com indicação mais comum para alguns pacientes com diabetes grave. Há casos em que ele é realizado junto com um transplante renal.
Outro ponto é que o procedimento exige uso contínuo de medicamentos para controlar a rejeição, o que pesa bastante na decisão de indicar ou não a cirurgia.
Já o autotransplante de ilhotas funciona de outro jeito.
Antes da retirada do pâncreas, algumas células capazes de produzir insulina podem ser separadas e depois colocadas no fígado.
Essa técnica é considerada em situações selecionadas de pancreatite crônica e busca reduzir a perda completa da produção de insulina.
Peso e nutrição merecem atenção depois da cirurgia
Perder alguns quilos durante a recuperação de uma cirurgia de grande porte pode acontecer.
O problema é quando o peso continua caindo ou a pessoa não consegue recuperar aquilo que perdeu.
Nessa situação, é preciso investigar o motivo.
Às vezes, a quantidade de enzimas não está adequada. Em outros casos, o paciente está comendo menos porque sente desconforto, enjoo ou falta de apetite.
A absorção de vitaminas também pode ser prejudicada.
Durante o acompanhamento, o médico pode avaliar a necessidade de exames e de suporte nutricional.
Não é só o número na balança que interessa. Força, massa muscular e capacidade de manter a alimentação também contam.
Podemos viver sem o pâncreas? Como fica o dia a dia
No começo, pode parecer muita coisa para lembrar.
Horário da insulina, glicemia, enzimas junto das refeições, consultas e recuperação da cirurgia entram todos de uma vez na vida do paciente.
Com o passar do tempo, boa parte desses cuidados tende a virar rotina.
Alguns pontos precisam continuar sendo observados:
- Glicose muito baixa ou muito alta.
- Perda de peso sem explicação.
- Diarreia persistente.
- Fezes muito oleosas.
- Dificuldade para comer.
- Sintomas que começaram depois de alguma mudança no tratamento.
Não é necessário esperar todos esses problemas aparecerem para conversar com a equipe que acompanha o caso.
Muitas vezes, pequenos ajustes evitam que o desconforto se prolongue.
Antes da cirurgia, uma pergunta ajuda bastante
Quem recebeu indicação para operar o pâncreas pode perguntar ao cirurgião quanto do órgão deverá ser retirado.
Essa informação ajuda a entender o que pode acontecer depois.
Uma retirada pequena, uma cirurgia de Whipple e uma pancreatectomia total têm consequências diferentes.
O diagnóstico também muda o planejamento.
Por esse motivo, não faz sentido olhar apenas para o nome da cirurgia. É preciso saber por que ela foi indicada e quanto tecido pancreático deverá permanecer.
Daí a importância do suporte de um cirurgião gastroenterologista qualificado ao longo de todo o processo, do pré-operatório à recuperação completa.
Perguntas frequentes
01Podemos viver sem o pâncreas e trabalhar normalmente?
Sim. Depois da recuperação, muitas pessoas retomam o trabalho e outras atividades habituais. A rotina precisa incorporar a insulina, as enzimas e o controle da glicose.
02Retirar o pâncreas faz a pessoa emagrecer muito?
Pode ocorrer perda de peso, principalmente no período próximo à cirurgia. Quando o emagrecimento continua por muito tempo, é preciso avaliar alimentação, reposição de enzimas e absorção de nutrientes.
03Quem não tem pâncreas pode viajar?
Pode. O planejamento precisa incluir insulina, materiais para medir ou acompanhar a glicose, enzimas e quantidade suficiente dos medicamentos para todo o período fora de casa.
04A pessoa sem pâncreas sente mais fome?
Não obrigatoriamente. A retirada do órgão não provoca esse sintoma em todos os pacientes. Mudanças de apetite podem aparecer por vários motivos no pós-operatório e devem ser avaliadas quando persistem.

Dr. Thiago Miranda Tredicci
CRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626
Cirurgião do aparelho digestivo e gastroenterologista em Goiânia, com mais de 15 anos de experiência em cirurgias de vesícula, refluxo, hérnias e câncer do aparelho digestivo, a maioria por videolaparoscopia. Atende no Órion Business & Health Complex, no Setor Marista.
Formação e experiência do cirurgião



