Quem faz a retirada da vesícula por videolaparoscopia pode sentir dor no ombro e sensação de barriga estufada nos primeiros dias.
Os gases depois da cirurgia de vesícula estão entre as causas mais comuns desse desconforto.
Durante a operação, é usado dióxido de carbono para criar espaço dentro do abdômen. Uma pequena quantidade pode permanecer por algum tempo e irritar o diafragma, fazendo a dor ser percebida no ombro.
Na maioria dos casos, esse incômodo melhora gradualmente.
O mais importante é saber quanto tempo ele pode durar, o que ajuda a aliviar e quais sinais merecem avaliação médica.
Por que é usado gás na cirurgia de vesícula?
A retirada da vesícula por videolaparoscopia é feita por pequenas incisões no abdômen. Por esses cortes, o cirurgião introduz uma câmera e os instrumentos usados durante o procedimento.
Para enxergar bem a região e movimentar os instrumentos com segurança, é necessário criar espaço dentro da barriga, pois o abdômen, em condições normais, não possui esse espaço livre.
Por esse motivo, o dióxido de carbono, conhecido como CO₂, é colocado na cavidade abdominal.
Esse gás faz a parede da barriga se afastar dos órgãos e cria uma espécie de área de trabalho temporária para a equipe cirúrgica.
Com isso, o cirurgião consegue visualizar melhor:
- A vesícula biliar;
- O fígado;
- Os canais por onde passa a bile;
- Os vasos da região;
- Os tecidos próximos.
Quando a retirada da vesícula termina, a equipe libera grande parte do CO₂ antes de fechar as pequenas incisões.
Mesmo com esse cuidado, pode restar um pouco de gás dentro do abdômen. O próprio organismo absorve esse volume ao longo das horas seguintes.
É justamente nesse período que algumas pessoas começam a perceber a barriga mais estufada ou a famosa dor no ombro.
Por que os gases depois da cirurgia de vesícula causam dor no ombro?
Essa é uma das dúvidas que mais surpreendem quem acabou de operar.
A pessoa espera sentir a barriga dolorida por causa dos cortes, mas de repente começa uma dor no ombro, mesmo sem ter feito nenhum procedimento nesta região.
A explicação está no diafragma.
O diafragma é um músculo localizado entre o tórax e o abdômen. Ele participa da respiração e fica muito próximo da região onde pode permanecer uma pequena quantidade do CO₂ usado durante a videolaparoscopia.
Quando esse gás irrita o diafragma, um nervo chamado frênico pode transmitir sinais de dor.
Só que o cérebro nem sempre interpreta esse sinal como vindo do diafragma. A sensação pode aparecer no ombro.
Esse fenômeno recebe o nome de dor referida, onde a origem do incômodo está dentro do abdômen, mas a pessoa sente:
- Dor no ombro;
- Peso próximo à clavícula;
- Desconforto na parte alta do peito;
- Pontadas que aparecem ao mudar de posição;
- Dor que incomoda mais ao respirar fundo.
Muitos pacientes percebem o problema com maior intensidade no ombro direito, embora ele possa surgir também do lado esquerdo ou nos dois lados.
A dor no ombro significa que houve algum problema na cirurgia?
Na maior parte das vezes, não.
Sentir o ombro dolorido nas primeiras horas ou nos primeiros dias após uma videolaparoscopia é algo conhecido.
A intensidade varia bastante.
Tem pacientes que percebem apenas um peso discreto, enquanto outros relatam uma pontada forte ou uma dor profunda que chega a incomodar mais do que os próprios cortes da cirurgia.
O ponto mais importante é acompanhar a evolução.
Quando a dor está relacionada ao gás, o esperado é que ela vá diminuindo.
Pode incomodar bastante no dia da operação, ficar presente no dia seguinte e depois perder intensidade.
Uma dor que cresce com o passar do tempo merece mais atenção. Também é importante observar se existem outros sintomas junto com o incômodo no ombro.
Febre, falta de ar, vômitos frequentes ou dor abdominal cada vez mais forte não devem ser colocados automaticamente na conta do gás.
Quanto tempo dura essa dor no ombro?
Em muitas pessoas, a dor começa a melhorar dentro de 24 a 48 horas.
Há pacientes que acordam da cirurgia já sentindo o ombro. Outros percebem o problema somente algumas horas depois, quando estão em casa ou já começaram a caminhar.
O desconforto também pode continuar por alguns dias, principalmente de forma mais leve.
Não existe um tempo exato que sirva para todos, pois o corpo de cada pessoa reage de um jeito à operação, à anestesia e à própria distensão provocada pelo gás.
O que se espera é uma melhora progressiva.
Se ontem a dor estava forte e hoje está mais suportável, essa mudança é um bom sinal.
Quando o incômodo continua muito intenso depois de vários dias ou começa a piorar, o cirurgião deve ser avisado.
Esse cuidado é ainda mais importante se aparecerem outros sintomas.
Barriga inchada também pode acontecer?
Pode.
Depois da cirurgia, algumas pessoas ficam com a impressão de que a barriga está maior, pesada ou cheia de ar.
Parte dessa sensação pode estar relacionada ao gás usado durante o procedimento. Só que o CO₂ não é o único motivo.
A anestesia e alguns medicamentos usados para controlar a dor podem deixar o intestino mais lento.
Quando isso acontece, o paciente pode apresentar:
- Aumento do inchaço abdominal;
- Dificuldade para evacuar;
- Menor eliminação de gases intestinais;
- Cólicas leves;
- Sensação de estômago ou barriga cheia;
- Redução do apetite.
Esse desconforto costuma melhorar conforme a pessoa volta a caminhar, beber líquidos e retomar a alimentação orientada pela equipe médica.
Também é comum o intestino levar um tempo para voltar ao ritmo habitual.
Uma barriga um pouco estufada nos primeiros dias pode fazer parte da recuperação.
A situação muda quando o abdômen fica cada vez mais inchado, muito dolorido ou acompanhado de vômitos repetidos.
Nesse cenário, vale entrar em contato com a equipe responsável pela cirurgia.
O que ajuda a aliviar os gases depois da cirurgia de vesícula?
Ficar completamente parado nem sempre é a melhor saída.
Quando a equipe médica já liberou a movimentação, pequenas caminhadas podem ajudar bastante no conforto pós-operatório.
Não é preciso andar por muito tempo. Levantar da cama, caminhar alguns minutos pela casa e depois descansar já é suficiente no começo.
Algumas atitudes podem deixar essa fase mais confortável:
- Caminhar por períodos curtos ao longo do dia.
- Mudar de posição de tempos em tempos.
- Evitar permanecer muitas horas seguidas deitado.
- Tomar a medicação prescrita nos horários orientados.
- Beber líquidos de acordo com a recomendação médica.
- Procurar uma posição que não pressione as incisões.
O movimento também ajuda o intestino a retomar sua atividade.
Só existe um cuidado importante: caminhada leve não é exercício. A pessoa não deve acelerar o passo, fazer esforço ou tentar “forçar” o gás a sair.
O corpo precisa de movimento, mas também de descanso.
Qual posição pode aliviar a dor no ombro?
Mudar a posição do corpo pode alterar a sensação provocada pelo gás.
Algumas pessoas se sentem melhor sem ficar totalmente deitadas:
- Apoiar o tronco com travesseiros e permanecer um pouco mais elevado pode trazer conforto;
- Deitar de lado também pode funcionar, desde que essa posição não pressione as incisões nem provoque dor na barriga.
Não existe uma postura única que funcione para todo mundo. Vale testar posições confortáveis e observar onde a dor diminui.
Em alguns pacientes, a sensação muda depois de levantar e caminhar por alguns minutos.
O ideal é evitar movimentos bruscos.
Sentar e levantar devagar ajuda a prevenir tonturas, principalmente nos primeiros dias, quando ainda pode existir efeito da anestesia ou dos medicamentos usados no pós-operatório.
Se o paciente sentir insegurança para andar, é prudente ter alguém por perto.
Repousar muito pode piorar o desconforto?
Passar o dia inteiro imóvel pode deixar a recuperação mais desconfortável.
Depois da cirurgia, é normal querer descansar bastante, afinal, o corpo passou por anestesia, manipulação cirúrgica e precisa se recuperar.
Só que repouso não significa ficar na cama o tempo todo.
Quando já existe liberação médica, pequenos períodos de caminhada fazem parte da recuperação.
O paciente pode alternar descanso e movimento.
Um exemplo simples seria levantar, caminhar alguns minutos dentro de casa, voltar a descansar e repetir isso outras vezes ao longo do dia.
Se o corpo demonstrar cansaço, é hora de parar.
Esforços maiores ficam para depois.
Carregar peso, fazer atividade física, dirigir ou voltar ao trabalho dependem do tipo de atividade e das orientações dadas pelo cirurgião.
O gás precisa sair pelo intestino?
Não necessariamente.
O CO₂ usado na videolaparoscopia não funciona da mesma maneira que os gases produzidos pelo intestino.
Boa parte dele é retirada pela equipe ainda durante a cirurgia.
O pequeno volume que pode permanecer na cavidade abdominal é absorvido pelo organismo e é eliminado principalmente pelos pulmões.
Por isso, não é necessário evacuar ou soltar gases intestinais para que todo o CO₂ da cirurgia desapareça.
A confusão acontece porque, no pós-operatório, o paciente também pode produzir gases intestinais e ficar com o intestino mais lento.
As duas coisas podem ocorrer ao mesmo tempo.
Por isso, caminhar pode ajudar tanto no conforto provocado pelo procedimento quanto na retomada da atividade intestinal.
É preciso tomar remédio para o gás?
Não existe um medicamento que simplesmente retire o CO₂ que ficou dentro do abdômen.
O organismo faz essa absorção sozinho.
Os medicamentos prescritos pelo cirurgião têm como objetivo principal controlar a dor e outros sintomas do pós-operatório.
Remédios usados para gases intestinais também não agem diretamente sobre o CO₂ deixado pela videolaparoscopia.
Portanto, não é indicado começar medicamentos por conta própria apenas porque apareceu dor no ombro ou sensação de barriga estufada.
Se o desconforto estiver maior do que o esperado, o melhor caminho é conversar com a equipe que realizou a cirurgia.
Quando a dor no ombro merece atenção?
A dor provocada pelo gás geralmente perde intensidade com o passar do tempo.
Uma dor que faz o caminho inverso deve ser observada.
Procure orientação médica se houver:
- Dor muito forte ou que está piorando;
- Falta de ar;
- Dor no peito;
- Febre;
- Vômitos repetidos;
- Barriga muito inchada e dolorida;
- Pele ou olhos ficando amarelados;
- Secreção ou pus nas incisões;
- Sangramento que não para;
- Vermelhidão crescente ao redor dos cortes;
- Dificuldade para beber líquidos;
- Fraqueza intensa ou mal-estar importante.
Esses sintomas não significam que uma complicação certamente aconteceu. Eles mostram que a situação não deve ser tratada apenas como dor causada pelo gás.
Uma avaliação permite verificar se a recuperação está seguindo bem ou se existe algum problema que precisa de cuidado específico.
Dor abdominal também é esperada?
Algum grau de dor na barriga faz parte dos primeiros dias, já que existem pequenas incisões na pele e houve manipulação de tecidos durante a cirurgia.
A região próxima ao umbigo pode ficar sensível, assim como os outros pontos usados para introduzir os instrumentos.
A sensação pode ser de:
- Ardência;
- Peso;
- Puxão;
- Dor ao levantar;
- Sensibilidade ao tossir;
- Desconforto ao mudar de posição.
Esse tipo de dor também deve melhorar aos poucos, onde o analgésico prescrito pode ajudar bastante.
Uma dor abdominal que aumenta, fica muito forte ou aparece junto com febre e vômitos precisa ser comunicada à equipe médica.
Quando voltar às atividades normais?
A recuperação varia de pessoa para pessoa. Muitos pacientes já conseguem caminhar pela casa no mesmo dia ou no dia seguinte à operação.
Atividades leves devem ser retomadas aos poucos.
Trabalho, direção, academia e levantamento de peso dependem do tipo de cirurgia, da evolução das incisões e da orientação do cirurgião.
Não é interessante usar apenas a ausência de dor no ombro como sinal de que o corpo está completamente recuperado.
O desconforto provocado pelo gás pode desaparecer logo, mas os tecidos operados ainda precisam de tempo para cicatrizar.
A melhor referência é a liberação dada na consulta ou nas orientações recebidas na alta.
Quando o desconforto faz parte da recuperação?
Nos primeiros dias, algum incômodo é esperado.
O paciente pode sentir a barriga dolorida, ficar mais cansado, ter menos apetite e perceber o ombro doendo por causa do gás usado durante o procedimento.
Quando esses sintomas vão ficando mais leves, geralmente acompanham a recuperação esperada.
O cenário muda quando surge uma piora clara.
Uma boa pergunta para observar em casa é: hoje estou melhor, igual ou pior do que ontem?
Se a resposta for “melhor”, mesmo que ainda exista desconforto, a recuperação provavelmente está avançando.
Mas se a resposta for “pior”, principalmente com novos sintomas, vale conversar com a equipe médica.
Perguntas frequentes
01É normal sentir dor no ombro depois de retirar a vesícula?
Sim. A dor pode surgir por causa da irritação do diafragma provocada pelo gás usado durante a videolaparoscopia. Muitas pessoas sentem esse incômodo nos primeiros dias.
02Quanto tempo duram os gases depois da cirurgia de vesícula?
O desconforto costuma melhorar nas primeiras 24 a 48 horas, mas pode permanecer de forma leve por alguns dias. O esperado é que a intensidade diminua gradativamente.
03Caminhar ajuda a aliviar a dor do gás?
Caminhadas curtas podem ajudar no conforto e também favorecer o funcionamento do intestino. O paciente deve andar devagar e respeitar os limites do corpo.
04Por que o ombro dói se a cirurgia foi feita na barriga?
A irritação do diafragma pode enviar sinais pelo nervo frênico. O cérebro pode interpretar esses sinais como uma dor localizada no ombro, fenômeno chamado de dor referida.
05Quando devo procurar o médico?
Dor que piora, febre, falta de ar, vômitos frequentes, barriga muito inchada ou olhos amarelados são sinais que precisam de avaliação médica.
Leitura complementar em fontes de referência sobre o tema.
- GasesMSD Manuals
- Considerações gerais sobre distúrbios da vesícula biliar e dutos biliaresMSD Manuals
- Cálculos biliaresMSD Manuals

Dr. Thiago Miranda Tredicci
CRM-GO 12828 | RQE 8168 e 8626
Cirurgião do aparelho digestivo e gastroenterologista em Goiânia, com mais de 15 anos de experiência em cirurgias de vesícula, refluxo, hérnias e câncer do aparelho digestivo, a maioria por videolaparoscopia. Atende no Órion Business & Health Complex, no Setor Marista.
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