A esofagite representa uma das queixas mais frequentes entre meus pacientes.
Trata-se de uma condição inflamatória que afeta o esôfago, o tubo que conecta a faringe ao estômago, e que pode ter diferentes etiologias e manifestações.
Com base em anos de experiência como médico especialista em transtornos digestivos, observo que muitos pacientes sofrem silenciosamente com esta condição por longos períodos antes de buscarem avaliação médica especializada.
Dessa forma, muitas complicações poderiam ser evitadas com intervenção precoce.
O que é esofagite?
A esofagite é caracterizada pela inflamação na parede do esôfago. Essa estrutura, apesar de resistente, pode ser lesionada por agentes físicos, químicos ou infecciosos.
O refluxo ácido costuma ser o motivo mais frequente do problema. O ácido estomacal, em contato direto com a mucosa, irrita o tecido e produz sintomas típicos, como azia, ardência na garganta e até dificuldade para engolir.
Algumas pessoas acreditam que esse desconforto seja passageiro. Há casos em que ocorre melhora espontânea, mas a persistência do refluxo pode agravar a inflamação.
Essa situação acaba resultando em feridas que requerem tratamento específico. Nesse cenário, recomendo que os pacientes fiquem atentos aos sinais e busquem avaliação caso a ardência seja frequente ou ocorram episódios de dor ao engolir.
Tipos de inflamação no esôfago
Existem diferentes tipos de esofagite, e cada um pode exigir abordagens específicas:
- Esofagite de refluxo: Originada pela ação do ácido gástrico sobre o revestimento do esôfago. Em geral, o paciente relata azia crônica e sabor amargo na boca, sobretudo após refeições mais volumosas ou ricas em gorduras.
- Esofagite infecciosa: Geralmente relacionada a fungos, vírus ou bactérias que se aproveitam de um sistema imunológico enfraquecido. O fungo mais comum é a Candida, desencadeando a chamada candidíase esofágica.
- Esofagite eosinofílica: Decorre de uma reação alérgica, muitas vezes associada a alimentos ou agentes inalantes. Pode surgir em adultos e crianças, levando a quadros de inflamação intensa e estreitamento do esôfago.
- Esofagite por medicamentos: Causada por certos remédios que agridem a mucosa, especialmente quando ingeridos com pouca água. Determinados comprimidos, ao permanecerem no esôfago por mais tempo que o adequado, lesionam o revestimento.
Essa variação de causas reforça a importância do exame clínico detalhado e, em muitos casos, da endoscopia digestiva alta. Esse procedimento viabiliza a visualização direta do esôfago e a coleta de biópsias.
Muitos de meus pacientes se surpreendem ao descobrir que seu sintoma constante de queimação tem origem em condições que poderiam ter sido tratadas de maneira precoce.
Sinais e sintomas comuns
Entre os sinais mais comuns, destacam-se:
- Sensação de queimação no peito ou na garganta.
- Dificuldade ou dor ao engolir (odinofagia).
- Sabor ácido ou amargo na boca.
- Aumento da salivação e vontade de engolir repetidamente.
- Desconforto ao deitar ou inclinar o tronco logo após as refeições.
Alguns pacientes experimentam dor semelhante a problemas cardíacos. Esses casos exigem atenção, pois o desconforto retroesternal muitas vezes gera confusão.
Investigar cada detalhe ajuda a descartar doenças cardíacas e a confirmar o diagnóstico de esofagite ou refluxo.
Fatores de risco
A presença de hábitos e condições específicas pode favorecer o aparecimento de esofagite:
- Alimentação desregrada: Grande consumo de alimentos gordurosos e frituras, que retardam o esvaziamento gástrico.
- Excesso de café e bebidas cítricas: Potencializam a irritação no esôfago.
- Obesidade: Aumenta a pressão na cavidade abdominal e favorece o retorno do ácido.
- Uso indiscriminado de medicamentos: Certos anti-inflamatórios provocam lesões na mucosa gastrointestinal.
- Tabagismo e álcool: Prejudicam o funcionamento do esfíncter esofágico inferior, facilitando o refluxo ácido.
Durante as consultas, costumo pontuar que a modificação de alguns desses fatores beneficia não só o esôfago, mas todo o trato gastrointestinal.
Práticas como manter uma dieta equilibrada, reduzir alimentos gordurosos e evitar o cigarro geram impacto significativo nos resultados.
Diagnóstico e acompanhamento
O exame de endoscopia digestiva alta é um recurso valioso, pois permite identificar a gravidade da inflamação. Quando necessário, biópsias são feitas para esclarecer a causa exata da esofagite.
Esse passo ajuda a direcionar o tratamento, seja ele voltado para controlar o refluxo, combater microrganismos ou reduzir a reação alérgica.
O acompanhamento constante pode ser decisivo para impedir que as lesões evoluam. Repetir endoscopias em intervalos específicos auxilia na confirmação de que a inflamação está sendo controlada.
Em quadros crônicos, recomendo revisões para avaliar resposta ao tratamento e possíveis ajustes em remédios ou hábitos diários.
Abordagens terapêuticas
O tratamento da esofagite varia conforme o fator desencadeante:
- Bloqueadores de ácido: Inibidores de bomba de próton (IBP) e bloqueadores H2 reduzem a acidez do estômago, oferecendo alívio significativo.
- Antifúngicos ou antivirais: Indicados para infecções diagnosticadas, como candidíase ou herpes.
- Corticoides: Podem ser úteis na esofagite eosinofílica, reduzindo a reação inflamatória.
- Cuidados na ingestão de comprimidos: Alguns casos envolvem mudança na forma de tomar os remédios, sempre com bastante água, para evitar que o comprimido permaneça no esôfago.
O tratamento deve ser personalizado, já que cada paciente tem sua rotina, alimentação e predisposições individuais.
Ao alinhar o uso de medicamentos com orientações detalhadas, a maioria dos pacientes evolui de forma positiva e retoma o conforto ao comer e beber líquidos.
Prevenção e orientações práticas
Acreditar que uma simples azia é algo comum leva muitas pessoas a adiarem a visita ao consultório. Esse atraso pode permitir o avanço da inflamação.
Procurar ajuda médica é uma estratégia inteligente, pois o diagnóstico precoce reduz riscos.
Em meu consultório, oriento mudanças simples, como:
- Fracionar a alimentação, optando por refeições mais leves ao longo do dia.
- Evitar deitar imediatamente após comer.
- Praticar exercícios físicos regulares, que auxiliam no controle do peso.
- Reduzir ou eliminar tabaco e álcool, protegendo não só o esôfago, mas todo o organismo.
- Controlar o estresse, já que quadros de ansiedade podem agravar o refluxo.
Essas intervenções são acessíveis e trazem resultados relevantes na recuperação. Quando associadas ao acompanhamento médico, oferecem uma abordagem completa, capaz de prevenir ou amenizar crises de esofagite.
Conclusão
A esofagite é uma inflamação que merece atenção cuidadosa e acompanhamento frequente.
Perceber mudanças pontuais no estilo de vida e seguir orientações profissionais pode evitar episódios de inflamação intensa, tornando o dia a dia mais confortável.
A auto-observação dos sinais corporais, aliada a visitas regulares ao gastroenterologista, abre caminho para um controle efetivo desse problema.
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