Com mais de 15 anos atuando em Goiânia como médico especialista em gastroenterologia, observo que o câncer infantojuvenil do aparelho digestivo representa um desafio diagnóstico e terapêutico único.

Embora corresponda a apenas 3-5% de todos os tumores pediátricos, sua complexidade exige atenção multidisciplinar desde os primeiros sintomas até a reabilitação.

Ao atender famílias preocupadas com dores abdominais, perda de peso ou mudanças repentinas nos hábitos alimentares dos filhos, procuro esclarecer que a prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais para promover a qualidade de vida.

Câncer infantojuvenil: Principais tipos de câncer digestivo

Diferentemente dos adultos, onde predominam carcinomas epiteliais, as neoplasias digestivas pediátricas são majoritariamente de linhagem embrionária ou mesenquimal.

Os principais tipos incluem:

  • Tumores hepáticos: Hepatoblastoma (80% dos casos) e carcinoma hepatocelular (mais raro, associado a cirrose ou doenças metabólicas).
  • Neuroblastoma abdominal: Origina-se nas células da crista neural, frequentemente localizado nas glândulas suprarrenais ou retroperitônio.
  • Rabdomiossarcoma: Pode afetar a vesícula biliar, pâncreas ou paredes intestinais.
  • Tumores estromais gastrointestinais (GIST): Raros em crianças, mas com comportamento menos agressivo que nos adultos.

Um dado preocupante é o aumento de 2% ao ano na incidência de câncer colorretal em adolescentes, associado a dietas pobres em fibras e obesidade precoce. 

A questão aqui é que esses casos costumam ser diagnosticados tardiamente devido à semelhança dos sintomas com doenças benignas, como síndrome do intestino irritável

Sinais de alerta

Muitas famílias chegam ao consultório intrigadas com quadros de diarreia crônica, dor abdominal persistente, perda de sangue nas fezes ou episódios recorrentes de vômito.

Esses sintomas nem sempre significam câncer infantojuvenil, mas servem como alerta.

Ao notar mudanças no estado geral da criança ou do adolescente, é prudente buscar orientação médica. Cada organismo reage de forma diferente às doenças, e a evolução clínica pode ser rápida.

Diagnóstico precoce

O diagnóstico precoce aumenta as chances de sucesso no tratamento. No momento em que detecto qualquer indício de doença mais grave, peço exames de imagem, como ultrassonografia ou ressonância magnética, e testes de sangue para verificar marcadores tumorais.

O acompanhamento com equipe multiprofissional, incluindo oncologistas pediátricos, possibilita que cada caso seja analisado sob diferentes ângulos, oferecendo uma condução terapêutica mais eficaz.

Tratamentos

O tratamento do câncer infantojuvenil no aparelho digestivo depende do tipo de tumor, estágio de evolução e características individuais de cada paciente.

Em muitos casos, a cirurgia é indicada para retirada da lesão, seguida de quimioterapia ou radioterapia, de acordo com a orientação do oncologista pediátrico.

Em minha prática clínica, participo ativamente no pré e no pós-operatório, avaliando funções digestivas e garantindo que a nutrição seja adequada.

Algumas crianças e adolescentes podem enfrentar efeitos colaterais, como náuseas, fadiga e mudança no apetite, sendo importante um acompanhamento de um nutricionista para garantir a manutenção do peso e a ingestão de nutrientes essenciais.

O retorno gradativo às atividades escolares e às rotinas diárias também faz parte do processo, sempre respeitando os limites de cada organismo durante a recuperação.

Prevenção e qualidade de vida

Estimular hábitos saudáveis desde cedo é essencial para reduzir riscos:

  • Manter um cardápio variado, rico em frutas, verduras e proteínas magras. Esse cuidado promove bom funcionamento intestinal e fortalece o sistema imunológico.
  • A prática de exercícios, aliada a repouso de qualidade, também traz resultados positivos para o desenvolvimento físico e mental.
  • Evitar alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas em excesso.
  • O cuidado com o peso corporal ajuda a prevenir sobrecarga no metabolismo.
  • Manter o calendário vacinal atualizado, pois certas infecções podem predispor ao aparecimento de lesões ao longo do tempo.

O controle regular de check-ups e a observação de sintomas persistentes proporcionam maior segurança às famílias.

Crianças e adolescentes em tratamento oncológico exigem suporte humanizado, tanto para lidar com a parte emocional quanto para superar as dificuldades impostas pelo processo terapêutico.

Acolhimento e suporte emocional

Além dos aspectos físicos, há impactos emocionais que devem ser abordados. Em meu consultório, percebo o quanto as crianças e adolescentes podem manifestar medo, angústia e ansiedade diante de um diagnóstico de câncer.

A rede de apoio oferecida por psicólogos, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais resulta em maior conforto para o paciente e seus familiares.

O acolhimento afeta diretamente a resposta ao tratamento. Ao lado dos oncologistas pediátricos, reforço a importância de valorizar cada pequena conquista.

A proximidade entre a equipe de saúde e a família cria um ambiente de confiança, favorecendo a adesão às recomendações médicas e a sensação de segurança necessária em situações delicadas.

Conclusão

A conscientização sobre câncer infantojuvenil precisa ser constante. Informar a sociedade sobre os sinais de alerta e estimular a busca por ajuda médica especializada em tempo hábil faz diferença.

Aos colegas de profissão, reforço a necessidade de atualização constante e de um olhar atento a sintomas inespecíficos que podem mascarar problemas graves.

A pesquisa científica segue avançando em busca de terapias mais seguras e eficazes. A descoberta de novas drogas e o aperfeiçoamento de técnicas cirúrgicas trazem esperança para inúmeras famílias.

A vitória contra o câncer não depende apenas dos recursos clínicos, mas também da perseverança e do suporte emocional que rodeia cada criança ou adolescente em tratamento.

Muitos casos podem ser controlados, e a taxa de cura em determinados tipos de câncer é significativa quando a doença é identificada no início.

Imagens: Créditos Freepik

Dr. Thiago Tredicci, Gastroenterologista e Cirurgião do Aparelho Digestivo. Experiente em cirurgia geral. CRM GO 12828, RQE 8168 e 8626.